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Jack London foi um grande fã de boxe, que ele chamava de “O Jogo”. Admitira diversas vezes não ter muita pegada, e por isso se especializara em esquivas e fintas. Dizem que em suas viagens, sempre que tinha a oportunidade, desafiava estranhos para uma troca amistosa de socos. Escreveu muito e bem sobre o tema. Claro que essa curiosidade literária de pouco vale para o Turismo Lado B, que calçou as luvas e entrou no ringue.

A primeira sensação é de ansiedade. Do outro lado do quadrilátero está uma pessoa que adentrou o ringue com a intenção de te derrubar a base de pancadas. Para um iniciante, encarar alguém mais experiente, rápido, forte e resistente é obviamente um aprendizado doloroso. Trata-se de um esporte onde, quando tudo dá certo, alguém sai machucado, afinal de contas. Antes do combate propriamente, melhor passar algumas informações.

O treino de boxe é basicamente constituído de repetição e ampliação da complexidade dos movimentos praticados. No começo, aprende-se a andar. Exatamente! Movimentar-se para frente e para trás sem perder o espaço da base que mantém o corpo firme. Andar para os lados sem trançar as pernas e comprometer o equilíbrio. Socos, apenas lentamente e um de cada vez. Recomendam-se ataduras porque, mesmo de luvas, as mãos podem inchar depois de uma sessão no saco de areia (que muitas vezes nem é de areia).

Pular corda, abdominais e alguns exercícios complementares para fortalecimento da musculatura do tronco e braços integram a rotina. Se você tiver a sorte de freqüentar uma academia bem equipada, poderá usar um teto-solo (double end bag) ou uma pêra (speed bag).

Tudo isso vai arrebentar os seus ombros, revelar sua falta de coordenação e, provavelmente, dar fim ao seu fôlego. Quando você estiver se sentindo um farrapo, é hora de encontrar forças para entrar no ringue.

E lá está ele novamente; mais experiente, rápido, forte e resistente do que você. Um ringue não é um moedor de carne (ainda não, pelo menos) e o adversário provavelmente é um cara legal. Mas cedo ou tarde, se quiser treinar boxe, você vai ter que perder o medo de levar uns murros. Então, já que não será indolor, pelo menos que seja breve.

Impressionante a rapidez com que se descobre que movimentar as mãos uns poucos centímetros para defender-se é uma tarefa complexa. As luvas tornam-se mais pesadas a cada instante, e parecem estar sempre protegendo as partes erradas do corpo. Quando consegue ver o adversário, se pergunta como ele avança, recua, esquiva e bate com tanta naturalidade. Não fosse o estremecimento provocado pelos golpes, poderia se chamar de suave o seu estilo.

Existem duas formas de descobrir se você tem a tarimba para O Jogo. A primeira é quando você leva um golpe mais forte e, em vez de recuar, tira disso alguma força, nem que motivada pela raiva momentânea. A outra ocorre quando, ao sentir o estofamento da luva se afundando no corpo do adversário, você percebe que gosta do som surdo produzido por um soco.

Talvez o rosto fique um pouco inchado, o nariz e a mandíbula doloridos, as mãos vermelhas. Mas essa é a Nobre Arte, e ela exige algum sacrifício.

Beira da Praia

Viajar para a Zona Sul é quase como atravessar um oceano (não que demore tanto – cerca de 30 minutos de ônibus, saindo do Centro de Porto Alegre). A região lembra os pedaços de terra que se descolam do continente e produzem uma ecologia completamente nova. Ainda é a capital gaúcha, mas não exatamente como o resto dela.

Tendo Ipanema como destino, nada mais natural do que atribuir essas diferenças aos ares praianos. O bairro fica às margens do Lago Guaíba, que se não tem onda, pelo menos na cor lembra as praias do Rio Grande do Sul. Muitas casas sendo reformadas ou à espera de atenção. Placas de “aluga-se”. Ruas calçadas e pouco movimentadas. Tudo lembra praia.

Mas visitar uma praia – mesmo que uma de água doce e com placas alertando que dar um mergulho é uma atividade sob sua própria conta e risco – é muito pouco para chamar de Lado B. Com isso em mente, chegou-se no Turíbio.

O bolicho do Seu Turíbio (ele atende também por Tulíbo, Políbio e, dizem, Ataliba) é um local bastante simples. O cardápio é regulado pelo dia da semana. Na sexta-feira o prato, que pode ser raso ou fundo, é preenchido com arroz, feijão, massa e galeto. Por R$ 5,50, trata-se de uma refeição deliciosa, honesta e caseiríssima.

Entretanto, cabem alertas aos viajantes incautos: os ovos de codorna que ficam sobre a mesa realmente ficam sobre a mesa. O dia todo. No sol. Para sempre. Logo, olhe, mas não toque; apesar de servir um saudoso guaraná de garrafa de vidro, o freezer do Seu Turíbio já não é mais como antigamente; por fim, reza a lenda que o Seu Turíbio, por trás do ar bonachão, de chinelos e camiseta gasta de física, é um tipo esperto – confira o troco com cuidado.

É importante não dar importância ao testemunho de cães ao longo da refeição. Apesar de famintos, eles são mais educados que muita gente. Sabem que se incomodarem, não levarão nada. Então, permanecem a cerca de dois metros da mesa. Adestrados pela fome, são capazes de pegar ossos no ar.

Estômago forrado, nada mais natural do que um passeio pela orla. Sobremesa: bergamotas (alterego gaúcho das tangerinas e mexericas). Sobremesa da sobremesa: alguns eventos bizarros – atenção para a Tocha Olímpica nas fotos.

Antes de partir, um último detalhe interessante a respeito da Zona Sul. Os moradores da região, quando se dirigem ao restante da cidade, dizem que “vão para Porto Alegre” ou “voltaram de Porto Alegre”. Apenas uma manifestação do separatismo que habita todo gaúcho.

Por uma questão de integração voltou-se, então, para Porto Alegre.

Não deixe de conferir a galeria completa dessa desventura!

A Cidade que é Fera

A viagem começou da forma mais turística possível. Olhando para o lado errado ao atravessar a rua e quase sendo atropelado por um Uno Mille. Aviso aos distraídos: a Júlio de Castilhos, que leva do Mercado Público de Porto Alegre até a entrada do Trensurb, não é tarefa fácil longe da faixa de pedestres.

Já nos subterrâneos da capital gaúcha, a primeira surpresa. Uma exposição fotográfica assinada por Renata Massetti. Trata-se de uma série de retratos do mesmo cara, com vários cortes de cabelo diferentes, começando como Capitão Caverna e terminando como o Kojak (ou o Dr. Evil, ou Esperidião Amin, se preferir). Não anotei o nome do trabalho, mas dá para ver mais coisa aqui.

A viagem de trem foi tediosa. As pessoas se distraem com qualquer coisa. Música e alguns livros, principalmente. Sempre tem um poema nas paredes. O dessa viagem era o seguinte:

SENTIMENTALJoviano Bertoldo Quatrin

Eu queria ter um coração feito de pedra.
Mas até rochedos na beira das estradas choram.

A viagem até Sapucaia do Sul, a Cidade que é Fera ali do título, levou 35 minutos. Um período bem razoável. A definição foi retirada de um outdoor em praça próxima da estação do Trensurb. Certamente, uma referência ao zoológico da cidade.

O caminho natural foi evitar qualquer ponto turístico óbvio (você descobre quais são, e todo o resto, aqui). O deslocamento aleatório encaminhou até a Vila Vargas, um pedacinho do Rio de Janeiro encravado na região metropolitana de Porto Alegre.

Ali, na pitoresca Rua Igrejinha, a primeira pausa. Recomenda-se fortemente a Lancheria Vitória, em frente a um campo de futebol de várzea. As fichas de fliperama dão dois créditos cada nas máquinas. A principal atração é Street Fighter Alpha 2. Eventualmente, você pode ser desafiado por alguém com cheiro de cachaça, o que só aumenta o charme modesto do local.

Já sob céu cinzento e ameaça de chuva, o que estraga a diversão até de um turista B, partiu-se para o caminho de retorno. Antes do trem, uma pausa para refeição. Nega-maluca e um X-Carne (atenção para a receita do doce).

Cercado por diversas opções gastronômicas, sentindo a aroma de churrasquinho, crepe e torradas, só pode-se reclamar do discurso político logo adiante. Pouco empolgado, algo melancólico e um pouco repetitivo. Nada que possa apagar as belas impressões deixadas por Sapucaia do Sul, afinal, todo mundo sabe, a culpa sempre é dos políticos.

Na volta, uma surpresa. A moda urbana local ainda está há anos-luz do que se faz nos Estados Unidos com as roupas de baixo. Em se tratando das próprias cuecas, os americanos são muito mais ousados. Tanto que isso já virou crime em alguns locais.

Para todas as fotos dessa aventura visite o nosso flickr.

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